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Catarina Cáceres Fotografia

Catarina Cáceres Fotografia

15 Nov, 2025

Soneto 35

  Não chores mais o erro cometido; Na fonte, há lodo; a rosa tem espinhos; O sol no eclipse é sol obscurecido; Na flor também o inseto faz o seu ninho; Erram todos, eu mesmo errei já tanto, Que te sobram razões de compensar Com essas faltas minhas tudo quanto Não terás tu somente a resgatar; Os sentidos traíram-te, e meu senso De parte adversa é mais teu defensor, Se contra mim te escuso, e me convenço Na batalha do ódio com o amor: Vítima e cúmplice do criminoso, Dou-me ao (...)
  Uma névoa de Outono o ar raro vela, Cores de meia-cor pairam no céu. O que indistintamente se revela, Árvores, casas, montes, nada é meu. Sim, vejo-o, e pela vista sou seu dono. Sim, sinto-o eu pelo coração, o como. Mas entre mim e ver há um grande sono. De sentir é só a janela a que eu assomo. Amanhã, se estiver um dia igual, Mas se for outro, porque é amanhã, Terei outra verdade, universal, E será como esta [...] Fernando Pessoa/ Fotografia de Ana Catarina Cáceres  
05 Nov, 2025

Ruínas

  Se é sempre Outono o rir das primaveras, Castelos, um a um, deixa-os cair... Que a vida é um constante derruir De palácios do Reino das Quimeras! E deixa sobre as ruínas crescer heras. Deixa-as beijar as pedras e florir! Que a vida é um contínuo destruir De palácios do Reino de Quimeras! Deixa tombar meus rútilos castelos! Tenho ainda mais sonhos para erguê-los Mais altos do que as águias pelo ar! Sonhos que tombam! Derrocada louca! São como os beijos duma linda boca! Sonhos (...)
  No ciclo eterno das mudáveis coisas Novo Inverno após novo Outono volve À diferente terra Com a mesma maneira. Porém a mim nem me acha diferente Nem diferente deixa-me, fechado Na clausura maligna Da índole indecisa. Presa da pálida fatalidade De não mudar-me, me infiel renovo Aos propósitos mudos Morituros e infindos. Odes de Ricardo Reis, Fernando Pessoa/ Fotografia de Ana Catarina Cáceres  
03 Mai, 2025

O sal da língua

  Escuta, escuta: tenho ainda uma coisa a dizer. Não é importante, eu sei, não vai salvar o mundo, não mudará a vida de ninguém - mas quem é hoje capaz de salvar o mundo ou apenas mudar o sentido da vida de alguém? Escuta-me, não te demoro. É coisa pouca, como a chuvinha que vem vindo devagar. São três, quatro palavras, pouco mais. Palavras que te quero confiar, para que não se extinga o seu lume, o seu lume breve. Palavras que muito amei, que talvez ame ainda. Elas são a (...)
  O meu olhar é nítido como um girassol. Tenho o costume de andar pelas estradas Olhando para a direita e para a esquerda, E de vez em quando olhando para trás... E o que vejo a cada momento É aquilo que nunca antes eu tinha visto, E eu sei dar por isso muito bem... Sei ter o pasmo essencial Que tem uma criança se, ao nascer, Reparasse que nascera deveras... Sinto-me nascido a cada momento Para a eterna novidade do Mundo... Creio no Mundo como num malmequer, Porque o vejo. Mas (...)
  Era ele que erguia casas Onde antes só havia chão. Como um pássaro sem asas Ele subia com as casas Que lhe brotavam da mão. Mas tudo desconhecia De sua grande missão: Não sabia, por exemplo Que a casa de um homem é um templo Um templo sem religião Como tampouco sabia Que a casa que ele fazia Sendo a sua liberdade Era a sua escravidão. De fato, como podia Um operário em construção Compreender por que um tijolo Valia mais do que um pão? Tijolos ele empilhava Com pá, cimento (...)
01 Mai, 2025

Gotas

  Exatamente como a árvore do outono que não sente o perder de suas folhas nem quando a chuva, a geada e o sol lhe resvalam pelo tronco, e a vida se retira para o mais íntimo e recôndito de si mesma. Ela não morre. Espera. Hermann Hesse/ Fotografia de Ana Catarina Cáceres  
30 Abr, 2025

A figueira

  Este poema começa no verão, os ramos da figueira a rasar a terra convidam a estender-me à sua sombra. Nela me refugiava como num rio. A mãe ralhava: A sombra da figueira é maligna, dizia. Eu não acreditava, bem sabia como cintilavam maduros e abertos seus frutos aos dentes matinais. Ali esperei por essas coisas reservadas aos sonhos. Uma flauta longínqua tocava numa écloga apenas lida. A poesia roçava- -me o corpo desperto até ao osso, procurava-me com tal evidência que eu (...)